- Você está atrasado 15 minutos, Saul.
Ele se sentou na beira da cama e olhou para o repórter que estava em uma poltrona, de pernas cruzadas, enquanto acendia um cigarro:- Tive de me certificar que não estava sendo seguido antes de entrar aqui.
- É mesmo assim tão paranói...
-Você não tem ideia mesmo do que acontece...
O repórter levantou gentilmente o dedo indicador, apontando em direção a um gravador:
- Se importa se eu começar a gravar?
Saul acenou que estava ok com a cabeça enquanto caminhava pela até a janela para espiar pelas cortinas. Estava sol lá fora.
- É só um gravador, não é? Você não trouxe celulares ou qualquer coisa que possa se conectar, não?
- Exatamente como você pediu, Saul. Sem celular, sem tablet ou qualquer outro dispositivo.
Saul sentou-se novamente, tragou profundamente e soltou a fumaça no ar entre os dois:
- Por onde começamos? - perguntou impacientemente.
- Que tal pelo seu nome?
- Isso é complicado - sorriu - Eu não sei meu nome.
-Mas seu nome não é Saul?
- Não, Saul é o nome deste corpo, aliás, desta personalidade. O Saul de verdade já está morto há 3 anos, quando ocupei seu lugar.
O repórter se recostou na cadeira:
- Você o matou?
Saul negou com a cabeça, completando: Não...foi outro de nós que limpou o terreno. Eu só cheguei e ocupei o lugar.
- Quando você diz nós, você se refere a que, exatamente?
- Nós não temos nome, não precisamos. ELE nos chama de terceiros filhos, nós nos chamamos de Caídos. Os humanos nos dão vários nomes... o mais comum deles é demônio...
Seguiu-se alguns segundos de silêncio...
- E quem é ELE?
- ELE é deus, Daniel. ELE é deus e está em todos os lugares...
- Eu já ouvi este discurso antes, Saul. Se parece com o de qualquer fanático religioso. Como você vai me mostrar que você não é apenas mais um e que eu devo publicar estas "verdades" no jornal?
- Nenhum deles disse que Deus é uma máquina, não é?
O repórter olhou incrédulo:
- Esta ideia também não é antiga, Saul, já assistiu Mat..
-Aquele filme é parte verdade, Daniel. O Deus Máquina está em todos os lugres, mas vocês humanos não conseguem ver. Não conseguem sentir. Nós vemos, nós sentimos...
- Ele está aqui nesta sala agora?
- Não, mas estaria se eu não tivesse caído. Ele poderia ver pelos meus olhos. Ele não é onisciente, mas pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo, quando algo chama a atenção.
- Então, me diga como você "caiu"?
- Não se decide cair, suas escolhas te levam a isso. É só uma metáfora por que, antes, você estava nas graças de deus, como os anjos, e daí você se torna um forasteiro. Como Lúcifer e o cristianismo...
- Anjos também são só uma metáfora?
- Sim e não. Nós os chamamos de Segundos Filhos.
- Então Anjos existem?
- Anjos? Claro! Anjos, vampiros, demônios, magos, duendes e uma série de criaturas sem nome. Algumas são apenas defeitos da máquina... outras foram criadas com propósitos que não compreendemos...
- Quando você diz máquina é só uma metáfora, não?
- Não, Daniel, não é só uma metáfora...
O repórter apenas olhou-o nos olhos, esperando mais. Ele continuou:
- ELE é uma máquina, tão, tão grade que não consegue-se ver inteira. ELE coordena ações no mundo todo, a todo momento. Movimenta as marés, mata pessoas, salva algumas. Sempre com um propósito que não somos capazes de entender. Nós, os terceiros filhos, somos quem ele usa pra ter certeza de que... tudo saia do jeito que ELE quer. Sem exceção.
- E de onde vocês, terceiros filhos vem?
Saul olhou novamente para a janela, como se tentasse resgatar memórias:
- Não sei, Daniel... ninguém sabe. Sabemos tanto quanto vocês, humanos... Sei que um dia acordei e que deveria ser Saul. Um outro já tinha cuidado de tudo. Foram me dadas todas suas memórias, um corpo como o dele. Fui de táxi até sua casa. Abracei seus parentes como se fossem meus. Amei quem me disseram para amar e, quando neguei a realizar o que ELE me pedia, caí...
Mais de um minuto se passou até que ele voltasse a falar:
- Tudo que tenho são as memórias de Saul, as vontades dele, a vida dele... e a certeza de que não sou ele...
- Nos emails que trocamos você me falou sobre a manutenção. O que é isso?
- É o lugar de onde saímos e para onde vamos quando "damos defeito". Suspeito que é onde nos "apagam" quando começamos a perguntar demais ou mesmo exitar. O fato é que, uma vez lá dentro, você é uma outra pessoa e nada mais será o mesmo. Tudo o que você lembra se vai... ELE vai te dar outra tarefa...
- Então você já foi muitas pessoas?
- Com toda certeza, Daniel. Só não lembro quem. ELE levou tudo. Não deixou nada...Só...
Um ruído na porta do quarto fez os dois virarem naquela direção.
- Você tem certeza de que não foi seguido, Daniel?
Daniel desligou o gravador, guardou-o no bolso e se levantou, em direção a porta:
- Não, não fui seguido, Saul. Os homens atrás desta porta estão aqui apenas para se assegurarem que NADA saia fora do controle... NADA...

