quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Os 7 Dogmas

Faz dias que não escrevo, tento ser mais atento, mas acabo me perdendo atrás de minhas curiosidades. Há dois dias, por exemplo, houve um assassinato na Cidadela, há umas centenas de metros de casa. A guarda já está investigando e atribuiu o Assassinato do Ourives Kenedy a um malfeitor conhecido na Cidade Baixa: Tom-alguma-coisa. Acho estranho, eu vi luzes no céu aquela noite.


Mas, vamos ao que me propus: vou falar sobre A Religião de Concórdia: sim, só temos uma, por isso ela não tem nome. Ela é muito popular na Cidade Baixa: as pessoas se acotovelam nos templos para participar das celebrações no domingo.
Deus é chamado de A Máquina, sim, sempre com letra maiúscula (já vi um jornal ser queimado por escrever em suas páginas uma referência errada). As pessoas realmente acreditam que, um dia, saímos de uma grande máquina! Dá pra imaginar? Eu sempre perguntei no catecismo: "Mas onde está esta máquina Magíster?" E tive minha mão açoitada enquanto ele dizia sorridente: "Vês o ar? Por que precisas ver A Máquina?"
Estes são os 7 dogmas essenciais de nossa religião, embora hajam outros menores ou mesmo um alguns desdobramentos destes sete.





1 - Bendirás  a Maquina e a Água.
2 - Credes em tua Sina.
3 - Guardarás o 7º dia.
4 - Pagarás tuas dívidas e impostos.
5 - Respeitarás os Religiosos e os Magísteres.
6 - Honrarás teu cavalo.
7 - Respeitarás o Deserto.



O Xerife, chefes e guardas executam as leis através destes 7 dogmas e suas interpretações, que, ao que parece, são BEM abertas. Já vi uma mulher do Umbral ser maltratada por um Guarda da Cidadela, ao pedir esmola. Ele dizia: "Respeita tua sina, mulher. A Máquina te fez pobre e assim deve permanecer até que sirva de alimento ao Vapor Universal!"


Antony

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os Magos

Sim, sou eu de novo: Antony. Desculpe a demora em escrever: os dias tem sido perigosos por aqui. Hoje vou falar sobre uma das bases da cidade de Concórdia: tão importantes quanto cada dínamo que roda por estas ruas: os magos.
Os habitantes os chamam de feiticeiros, mas o pronome de tratamento certo para usar é: vossa magnificência. São imponentes, andam pela cidade alta e baixa em seus cavalos robôs com seus cajados na mão direita, geralmente usando uma máscara de metal. Impossível não notá-los e temê-los: Eles estão acima dos guardas, dos xerifes e até mesmo do governador (todos estes não tem sua condição vitalícia).

Não se sabe o que faz um Mago nascer, sabemos apenas que eles nascem e quando se tornam adultos, aos treze anos, se são detectados (isso é, se seus poderes realmente são notáveis), são levados à casa da Árvore (onde os magos moram e estudam) e lá vão viver e aprender a serem o que são. Não há prestígio maior, importância maior ou destino maior.

Há os magos que não desenvolvem, estes nem são levados à Casa da Árvore. Eles são capazes de fazer apenas um ou outro truque, achar água, comandar pássaros... Não passam de “bruxedos”, como dizem, por isso as pessoas os chamam de bruxos, curandeiros, parteiras... quase toda família tem um tio-avô doido que vive os dias tirando a sorte ou mexendo com plantas. Os magos os desprezam, pois não tem o potencial para se tornar um deles, a cidade usa de seus serviços quando convém, mas os trata como doidos.
Ouvi dizer que existem 20 magos treinados em Concórdia e cerca de 10 aprendizes: Nenhuma outra cidade tem tantos.

Os justiceiros e malfeitores nunca sobem até a cidadela com medo deles, pelo menos não tanto quanto o fariam se eles não estivessem lá, no entanto fazem a festa na cidade baixa, onde há lugares que nem mesmo a guarda chega.

sábado, 12 de setembro de 2015

Concórdia


Eu não sei quantos anos tem Concórdia... Sei que ela já existia antes da minha mãe nascer e antes da mãe dela também. Não é uma grande coisa, já adianto… Dizem que somos meio milhão de pessoas, considerando a parte alta e baixa da cidade, quase nada se comparada às cidades dos meus sonhos, mas de qualquer maneira somos a maior cidade já erguida pelo homem.
Somos cercados pelo mare de areia, que se estende por centenas e centenas de quilômetros para todos os lados, dizem. Há, é claro, uma vilazinha aqui, outra ali: 100… 200 pessoas… Mas eles em geral tem de vir até Concórdia atrás de itens que não conseguem produzir, ferro fundido, implantes, reductores, tudo que só a “cidade grande” consegue produzir.
Cidadela
Moro na parte alta da cidade, isso quer dizer que nossas ruas são calçadas por pedras e que despejamos nossas impurezas longe de nossas coisas, para não dizer exatamente sobre a cabeça da cidade baixa. Aqui em cima elegantes mulheres desfilam durante o dia, com sombrinhas estampadas, de braços dados enquanto observam os homens que as observam. Os homens tiram seus chapéus ou cartolas para cortejá-las enquanto passam… Param seus cavalos e charretes para que elas cruzem de um lado ao outro e sorriem educadamente enquanto elas cochicham entre si.
As crianças aqui em cima vão à escola para aprender a ler o livro sagrado, inclusive as mulheres! Lá em baixo, não! É o que dizem para as crianças daqui, possivelmente para assustá-las.
Mas eu, em minhas incursões noturnas não autorizadas até “lá em baixo” já me deparei com algumas escolas. Todas eram muito precárias e percebia-se que nem de longe eram grandes o suficiente para abrigar as crianças, caso todas decidissem ir às aulas. Mas… se você tem que ajudar sua família nos criadouros, fornalhas ou minas… a educação fica para segundo plano. Imagino que poucas são as famílias que realmente se preocupem em querer que o filho tenha uma sina diferente da sua, em uma mina de carvão, fundindo aço ou quebrando cascalho. A maioria cresce em meio às brigas dos saloons, justiceiros, guardas e bebida, muita bebida!
Então você me pergunta se todos da cidade alta são ricos e todos da cidade baixa são pobres?
Claro que não! Existe uma grande quantidade de pessoas que estão no meio: são os artesãos, padeiros, perfumeiros, guardas, amantes de luxo, etc. Gente que circula tanto na “cidadela” (como alguns chamam a parte alta) quanto no Umbral (como chamam a cidade baixa). São eles que levam as notícias para cima e para baixo, alimentando a inveja do Umbral e o medo da Cidadela.

Mas as vezes o medo é justificado.
As vezes um justiceiro ou fora da lei resolve acertar as contas com quem realmente “manda na coisa” e resolve subir. Seus cavalos de metal chegam sujos de terra das ruas não calçadas da cidade baixa. Ele é obviamente de fora dali, sente-se no cheiro, dizem. Eu diria que na verdade eles são mais espertos do que nós. Usar fibras nas vestimentas não é muito esperto quando estamos em uma cidade com tanto vapor. Já os justiceiros usam couro, couro de cavalos de verdade ou bois que abatem ilegalmente nas fazendolas. A maioria tem implantes, geralmente uma perna ou uma mão, que fora perdida num duelo e vem acertar as contas com um banqueiro que pagou mal pelo serviço, ou um ourives.

A guarda da cidadela é acionada pelos tiros, ou pelos sinos, que estão espalhados por toda ela… eles chegam em cavalos de metal feitos pelos magos, geralmente tem simbiontes nas pernas e botam o “lixo de umbral” pra correr. A guarda é respeitadíssima afinal, nós humanos, gostamos de disputas e numa cidade tão grande, com tantos recursos nas mãos de tão poucos, brigas e acertos de contas acontecem o tempo todo.


Antony


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Brincadeira de criança

César tentou escutar por trás da porta, na esperança de não ouvir nada.
Ouviu risos.
Seu coração quase parou. Teria descido as escadas e pulado do viaduto logo em frente à boate, mas sabia que o Contador não o deixaria sair. Era prisioneiro dele e, por enquanto, não havia nada o que podia fazer. Ele apenas dissera:
- Suas filhas estão te esperando, papai. Construí um quarto novo para elas. Já estavam grandes demais pra ficar naquele cubículo ou sobre uma prateleira.
César o fitara por alguns segundos, sem saber o que responder. O Contador apenas acrescentou:
- Dê o que comer e eles crescem, César. Elas não poderiam ser crianças para sempre, por mais que você quisesse. As alimentei com aquilo que saia da garrafa. Me alimentei com aquilo que sai da garrafa e olha que coisa maravilhosa aconteceu! Tenho certeza de que elas estão ansiosas pelo seu retorno.
Já perdera a noção de quanto tempo estava ali parado no corredor, com o ouvido colado à porta, tentando prever o que aconteceria. Havia risos. Os gritos que ouvia eram de Pequeno, no porão. Risos...
Possivelmente estavam contentes. O que era bom.
Ou estariam tentando deixá-lo louco, apenas rindo. O que já estava acontecendo.
Poderiam estar brincando entre si, esperando o papai. O que era pouco provável.
Ou poderia apenas ser uma gravação... vozes infantis saindo de um velho televisor ou gravador, programações do Contador, que tentava assustá-lo. O que era provável.

Sorriu e teve dificuldades ao girar a maçaneta, pois suava em bicas. Estava ali fazia 15 minutos.
- Papai?!

Quando os Homens criaram os Deuses – Parte III


- Sabe, cheguei a achar que não conseguiria isso. Cheguei a achar que isso é impossível! – Disse Odair enquanto apertava uma das correias.
Pequeno não falou nada, tentava a todo custo pensar em uma saída. Analisava a programação que ele mesmo havia projetado ali para aquela sala: exatamente igual, perfeita, com a única diferença: agora a programação o anulava. Apenas continuava forte, inflexível e não detectada ao olhar humano.
- Ele me deu todo o tempo que quiser, sabia? 3 dias, 3 meses, 3 anos. Só exigiu que fossem 3 algo! Cara estranho este Aldous. Mas os negócios com ele foram muito lucrativos para todos os envolvidos.
Um lampejo de ideia:
- Eu posso trazer o Marco de volta, Moranguinho! Posso trazer ele igualzinho ao o que era.
Odair colocou a mão no queixo, se afastou do pau-de-arara, olhou com interesse:
- Pode?
Pequeno ficou afoito, havia achado o que ele queria:
-Posso!
Odair abaixou-se e ficou cara-a-cara com ele, de ponta cabeça:
- O que você quer em troca?
- Basta que você me tire daqui. Aqui dentro não posso fazer nada! O contad.. quero dizer, Aldous fez algo que me impede. Lá fora eu sou mais forte do que ele! Lá fora eu posso fazer o que quiser! Eu posso...
Foi interrompido pela risada histerica de Odair:
-Você acha MESMO que eu acreditaria nisso? Acha mesmo que o próprio Aldous não me avisou que você tentaria oferecer qualquer coisa?
Pegou uma gagball e enfiou na boca de Pequeno, que tentou impedi-lo em vão.
- Sabia que meu sangue pode manter você vivo por anos, mesmo sob a mais forte tortura? Sob as minhas mais fortes “carícias”? – Odair Sorriu. Pequeno chorou. Pequeno sentia medo.

Odair pegou um cabo de vassoura, enquanto assoviava La Traviata.