sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Naquela noite de chuva

Enquanto a chuva caia em Concórdia, anormalmente, naquela época do ano, os ânimos se alinhavam. Todos procuravam conforto diante da tempestade inesperada: uns afogaram as carências em um prato de sopa, outros nos braços dos amantes ou ainda numa garrafa de whisky.

Robert
- Você parece incomodado, Robert. - Interpelou Ana, enquanto saia nua da cama e caminhava até a janela, onde o amante observava a chuva.
- É só que... esta chuva... esta época do ano. Não deveria estar acontecendo.
Ela o abraçou por trás:
- A chuva é algo bom, não importa a época do ano, Bob. Vivemos no meio do deserto. Cada gota de água é importante...
Robert apenas concordou com a cabeça, sem mudar a sua expressão: Você está certa, vou fumar um cigarro nos fundos.
Com algum esforço encontrou as calças no chão e as vestiu trôpego pelo corredor que levava até a cozinha, abriu a porta e antes mesmo de acender o cigarro, olhou para trás para se certificar que estava sozinho:
Deixou que algumas gostas de chuva molhassem a palma de sua mão, enquanto perguntava: Esta chuva é natural?
A resposta lhe arrepiou a espinha.


Tara




Revirou-se na cama enquanto ouvia o marido gemer no quarto ao lado... Normalmente o barulho não a incomodava, mas os gemidos junto com aquelas risadas cada vez mais altas ao fundo pareciam querer enlouquece-la. Sentia que a cidade toda respirava aliviada pela chuva, com exceção dela, atormentada pelas vozes que só ela escutava e do pobre ser que estava preso no sotão dos endinheirados donos dO Profeta.
Sabia que precisava fazer algo, antes que Os Magísteres descobrissem que "aquilo" era capaz de ver os mortos. Eles com certeza o levariam... Para onde?







John


Tragou com força o cigarro e logo depois o passou para o irmão.
- Não acho seguro para vocês que eu fique por aqui, J.
O irmão fez o mesmo e se serviu de um gole de whisky tirado diretamente do barril.
- Mas por que, J? - A ideia de ficar longe do irmão era terrível. Conseguiria ficar sem a esposa, sem as terras, mas não sem seu irmão gêmeo.
- Tenho medo de que Os Magos façam algo para você ou Margareth. Tenho medo de que confundam nós dois... tenho medo de muita coisa. Muita coisa pode dar errada...
- Mas a culpa é deles, J! Eles que não te levaram quando você era criança! Eles que deveriam ter feito a coisa certa!
- E desde quando um Mago está errado, J? Me diz! - Balançou a cabeça e apagou a bituca com a bota.





Buck




- Você tem certeza de que isso é ruim, Cinte?
Cinte caminhou até a borda da caverna, não deixando que os respingos o molhassem:
- Absolutamente, Corsário. Não sente? A cidade toda dorme tranquila, enquanto os Magos trabalham para fazer chover. A questão é Por quê?

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Os 7 Dogmas

Faz dias que não escrevo, tento ser mais atento, mas acabo me perdendo atrás de minhas curiosidades. Há dois dias, por exemplo, houve um assassinato na Cidadela, há umas centenas de metros de casa. A guarda já está investigando e atribuiu o Assassinato do Ourives Kenedy a um malfeitor conhecido na Cidade Baixa: Tom-alguma-coisa. Acho estranho, eu vi luzes no céu aquela noite.


Mas, vamos ao que me propus: vou falar sobre A Religião de Concórdia: sim, só temos uma, por isso ela não tem nome. Ela é muito popular na Cidade Baixa: as pessoas se acotovelam nos templos para participar das celebrações no domingo.
Deus é chamado de A Máquina, sim, sempre com letra maiúscula (já vi um jornal ser queimado por escrever em suas páginas uma referência errada). As pessoas realmente acreditam que, um dia, saímos de uma grande máquina! Dá pra imaginar? Eu sempre perguntei no catecismo: "Mas onde está esta máquina Magíster?" E tive minha mão açoitada enquanto ele dizia sorridente: "Vês o ar? Por que precisas ver A Máquina?"
Estes são os 7 dogmas essenciais de nossa religião, embora hajam outros menores ou mesmo um alguns desdobramentos destes sete.





1 - Bendirás  a Maquina e a Água.
2 - Credes em tua Sina.
3 - Guardarás o 7º dia.
4 - Pagarás tuas dívidas e impostos.
5 - Respeitarás os Religiosos e os Magísteres.
6 - Honrarás teu cavalo.
7 - Respeitarás o Deserto.



O Xerife, chefes e guardas executam as leis através destes 7 dogmas e suas interpretações, que, ao que parece, são BEM abertas. Já vi uma mulher do Umbral ser maltratada por um Guarda da Cidadela, ao pedir esmola. Ele dizia: "Respeita tua sina, mulher. A Máquina te fez pobre e assim deve permanecer até que sirva de alimento ao Vapor Universal!"


Antony

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os Magos

Sim, sou eu de novo: Antony. Desculpe a demora em escrever: os dias tem sido perigosos por aqui. Hoje vou falar sobre uma das bases da cidade de Concórdia: tão importantes quanto cada dínamo que roda por estas ruas: os magos.
Os habitantes os chamam de feiticeiros, mas o pronome de tratamento certo para usar é: vossa magnificência. São imponentes, andam pela cidade alta e baixa em seus cavalos robôs com seus cajados na mão direita, geralmente usando uma máscara de metal. Impossível não notá-los e temê-los: Eles estão acima dos guardas, dos xerifes e até mesmo do governador (todos estes não tem sua condição vitalícia).

Não se sabe o que faz um Mago nascer, sabemos apenas que eles nascem e quando se tornam adultos, aos treze anos, se são detectados (isso é, se seus poderes realmente são notáveis), são levados à casa da Árvore (onde os magos moram e estudam) e lá vão viver e aprender a serem o que são. Não há prestígio maior, importância maior ou destino maior.

Há os magos que não desenvolvem, estes nem são levados à Casa da Árvore. Eles são capazes de fazer apenas um ou outro truque, achar água, comandar pássaros... Não passam de “bruxedos”, como dizem, por isso as pessoas os chamam de bruxos, curandeiros, parteiras... quase toda família tem um tio-avô doido que vive os dias tirando a sorte ou mexendo com plantas. Os magos os desprezam, pois não tem o potencial para se tornar um deles, a cidade usa de seus serviços quando convém, mas os trata como doidos.
Ouvi dizer que existem 20 magos treinados em Concórdia e cerca de 10 aprendizes: Nenhuma outra cidade tem tantos.

Os justiceiros e malfeitores nunca sobem até a cidadela com medo deles, pelo menos não tanto quanto o fariam se eles não estivessem lá, no entanto fazem a festa na cidade baixa, onde há lugares que nem mesmo a guarda chega.

sábado, 12 de setembro de 2015

Concórdia


Eu não sei quantos anos tem Concórdia... Sei que ela já existia antes da minha mãe nascer e antes da mãe dela também. Não é uma grande coisa, já adianto… Dizem que somos meio milhão de pessoas, considerando a parte alta e baixa da cidade, quase nada se comparada às cidades dos meus sonhos, mas de qualquer maneira somos a maior cidade já erguida pelo homem.
Somos cercados pelo mare de areia, que se estende por centenas e centenas de quilômetros para todos os lados, dizem. Há, é claro, uma vilazinha aqui, outra ali: 100… 200 pessoas… Mas eles em geral tem de vir até Concórdia atrás de itens que não conseguem produzir, ferro fundido, implantes, reductores, tudo que só a “cidade grande” consegue produzir.
Cidadela
Moro na parte alta da cidade, isso quer dizer que nossas ruas são calçadas por pedras e que despejamos nossas impurezas longe de nossas coisas, para não dizer exatamente sobre a cabeça da cidade baixa. Aqui em cima elegantes mulheres desfilam durante o dia, com sombrinhas estampadas, de braços dados enquanto observam os homens que as observam. Os homens tiram seus chapéus ou cartolas para cortejá-las enquanto passam… Param seus cavalos e charretes para que elas cruzem de um lado ao outro e sorriem educadamente enquanto elas cochicham entre si.
As crianças aqui em cima vão à escola para aprender a ler o livro sagrado, inclusive as mulheres! Lá em baixo, não! É o que dizem para as crianças daqui, possivelmente para assustá-las.
Mas eu, em minhas incursões noturnas não autorizadas até “lá em baixo” já me deparei com algumas escolas. Todas eram muito precárias e percebia-se que nem de longe eram grandes o suficiente para abrigar as crianças, caso todas decidissem ir às aulas. Mas… se você tem que ajudar sua família nos criadouros, fornalhas ou minas… a educação fica para segundo plano. Imagino que poucas são as famílias que realmente se preocupem em querer que o filho tenha uma sina diferente da sua, em uma mina de carvão, fundindo aço ou quebrando cascalho. A maioria cresce em meio às brigas dos saloons, justiceiros, guardas e bebida, muita bebida!
Então você me pergunta se todos da cidade alta são ricos e todos da cidade baixa são pobres?
Claro que não! Existe uma grande quantidade de pessoas que estão no meio: são os artesãos, padeiros, perfumeiros, guardas, amantes de luxo, etc. Gente que circula tanto na “cidadela” (como alguns chamam a parte alta) quanto no Umbral (como chamam a cidade baixa). São eles que levam as notícias para cima e para baixo, alimentando a inveja do Umbral e o medo da Cidadela.

Mas as vezes o medo é justificado.
As vezes um justiceiro ou fora da lei resolve acertar as contas com quem realmente “manda na coisa” e resolve subir. Seus cavalos de metal chegam sujos de terra das ruas não calçadas da cidade baixa. Ele é obviamente de fora dali, sente-se no cheiro, dizem. Eu diria que na verdade eles são mais espertos do que nós. Usar fibras nas vestimentas não é muito esperto quando estamos em uma cidade com tanto vapor. Já os justiceiros usam couro, couro de cavalos de verdade ou bois que abatem ilegalmente nas fazendolas. A maioria tem implantes, geralmente uma perna ou uma mão, que fora perdida num duelo e vem acertar as contas com um banqueiro que pagou mal pelo serviço, ou um ourives.

A guarda da cidadela é acionada pelos tiros, ou pelos sinos, que estão espalhados por toda ela… eles chegam em cavalos de metal feitos pelos magos, geralmente tem simbiontes nas pernas e botam o “lixo de umbral” pra correr. A guarda é respeitadíssima afinal, nós humanos, gostamos de disputas e numa cidade tão grande, com tantos recursos nas mãos de tão poucos, brigas e acertos de contas acontecem o tempo todo.


Antony


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Brincadeira de criança

César tentou escutar por trás da porta, na esperança de não ouvir nada.
Ouviu risos.
Seu coração quase parou. Teria descido as escadas e pulado do viaduto logo em frente à boate, mas sabia que o Contador não o deixaria sair. Era prisioneiro dele e, por enquanto, não havia nada o que podia fazer. Ele apenas dissera:
- Suas filhas estão te esperando, papai. Construí um quarto novo para elas. Já estavam grandes demais pra ficar naquele cubículo ou sobre uma prateleira.
César o fitara por alguns segundos, sem saber o que responder. O Contador apenas acrescentou:
- Dê o que comer e eles crescem, César. Elas não poderiam ser crianças para sempre, por mais que você quisesse. As alimentei com aquilo que saia da garrafa. Me alimentei com aquilo que sai da garrafa e olha que coisa maravilhosa aconteceu! Tenho certeza de que elas estão ansiosas pelo seu retorno.
Já perdera a noção de quanto tempo estava ali parado no corredor, com o ouvido colado à porta, tentando prever o que aconteceria. Havia risos. Os gritos que ouvia eram de Pequeno, no porão. Risos...
Possivelmente estavam contentes. O que era bom.
Ou estariam tentando deixá-lo louco, apenas rindo. O que já estava acontecendo.
Poderiam estar brincando entre si, esperando o papai. O que era pouco provável.
Ou poderia apenas ser uma gravação... vozes infantis saindo de um velho televisor ou gravador, programações do Contador, que tentava assustá-lo. O que era provável.

Sorriu e teve dificuldades ao girar a maçaneta, pois suava em bicas. Estava ali fazia 15 minutos.
- Papai?!

Quando os Homens criaram os Deuses – Parte III


- Sabe, cheguei a achar que não conseguiria isso. Cheguei a achar que isso é impossível! – Disse Odair enquanto apertava uma das correias.
Pequeno não falou nada, tentava a todo custo pensar em uma saída. Analisava a programação que ele mesmo havia projetado ali para aquela sala: exatamente igual, perfeita, com a única diferença: agora a programação o anulava. Apenas continuava forte, inflexível e não detectada ao olhar humano.
- Ele me deu todo o tempo que quiser, sabia? 3 dias, 3 meses, 3 anos. Só exigiu que fossem 3 algo! Cara estranho este Aldous. Mas os negócios com ele foram muito lucrativos para todos os envolvidos.
Um lampejo de ideia:
- Eu posso trazer o Marco de volta, Moranguinho! Posso trazer ele igualzinho ao o que era.
Odair colocou a mão no queixo, se afastou do pau-de-arara, olhou com interesse:
- Pode?
Pequeno ficou afoito, havia achado o que ele queria:
-Posso!
Odair abaixou-se e ficou cara-a-cara com ele, de ponta cabeça:
- O que você quer em troca?
- Basta que você me tire daqui. Aqui dentro não posso fazer nada! O contad.. quero dizer, Aldous fez algo que me impede. Lá fora eu sou mais forte do que ele! Lá fora eu posso fazer o que quiser! Eu posso...
Foi interrompido pela risada histerica de Odair:
-Você acha MESMO que eu acreditaria nisso? Acha mesmo que o próprio Aldous não me avisou que você tentaria oferecer qualquer coisa?
Pegou uma gagball e enfiou na boca de Pequeno, que tentou impedi-lo em vão.
- Sabia que meu sangue pode manter você vivo por anos, mesmo sob a mais forte tortura? Sob as minhas mais fortes “carícias”? – Odair Sorriu. Pequeno chorou. Pequeno sentia medo.

Odair pegou um cabo de vassoura, enquanto assoviava La Traviata. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

3:32 - Parte II

3:43
A velha vira as costas. Os anjos foram embora: Mais sorte na próxima vez, pensaram.
Subiu os degraus com dificuldade, seu corpo custava a sustentar os 3 ali dentro, mesmo sendo programado e reprogramado para isso. Precisava descansá-lo e deixar que cada um fosse para seu lugar. Coisas grandes estavam previstas para aquela noite, não podiam perder mais tempo.
A porta não se abriu.
Forçou a maçaneta mais uma vez: nada.
Encarou intrigada a porta, que ela mesma projetara e que jamais deveria deixar de cumprir uma ordem sua.
Ouviu um miado a seus pés e teve tempo apenas de observar seu gato se desfazendo em um amontoado de pixels, antes de desaparecer.
Seus olhos se esbugalharam. Sentiam-se estranhos. Deveria ser o aperto dentro daquele corpo. Deveria ser o suor que começou a escorrer da testa da velha. Era medo. Era urgência.
Começou a esmurrar a porta com toda força que tinha, o ruído foi escutado por quilômetros, como se tiros fossem dados em seqüência. Inútil, sabia que aquela porta resistiria até mesmo uma bomba nuclear, o que eram seus punhos?
- Quem está ai?! – gritaram as 3 vozes
- QUEM ESTÁ AI?! – gritaram novamente.
- ABRA!!!!! – gritou enquanto misturava em seus gritos ódio e choro.
Escutou o barulho de sapatos andando pela nave, eles saiam do altar, em direção à porta.
Acalmou-se. Não podia ser nada demais. O Vento poderia ter fechado a porta. Algum visitante poderia ter entrado para rezar e agora ele iria abrir:
- Caleb? – Falaram as vozes do outro lado da porta.
- Quem está ai? – falou com um fio de voz, engolindo a saliva, enquanto sua garganta parecia que ia estourar. Sentia sua pele querendo rasgar enquanto arranhava a pintura da porta de madeira.
- Somos nós, Caleb. Somos muitos. Somos 13.

Quando os Homens criaram os deuses - Parte II

Quando os Homens criaram os Deuses – Parte II

Pequeno quase derrubou a porta, de tanto bater, até que ela se abriu:
- Moranguinho?!
Odair, aka Moranguinho, abriu a porta da boate sorridente, como sempre.
-Talvez queiram entrar! – E abriu caminho para Pequeno e César.
Pequeno o empurrou e entrou bufando:
- Contador! Contador! Onde você está? O que está acontecendo?
O Contador se encontrava no meio da pista de dança, sorridente:
- Mestre, me desculpe. Não pude abrir a porta, mas pedi que o Sr. Moranguinho o fizesse.
- O que ele está fazendo aqui a esta hora? A boate está fechada hoje! – Rebateu Pequeno, indo para cima do Contador, que deu alguns passos para trás.
- Calma, mestre! O Sr. Moranguinho está aqui por que o chamei. Fizemos
um acordo e ele veio pegar a parte dele.
César segurou Pequeno pelos ombros:
- Calma, rapaz! Vamos ver o que aconteceu. Diga logo, contador! Não vou conseguir segura-lo por muito tempo!
O Contador ajeitou a gravata e esticou as pregas imaginárias de seu terno:
- Em primeiro lugar, de agora em diante, agradeceria se me chamassem pelo meu nome: Aldous. Tratarei-os pelo primeiro nome daqui em diante, uma vez que já estamos acertando os... – foi interrompido pelo soco de direita de Pequeno e arremessado ao chão.
- Você vai me chamar de mestre! Eu te criei! Você me obedece!
Aldous, enquanto limpava um filete de sangue que escorreu do canto de sua boca, respondeu:
- Que ironia, não?! Será que serei a primeira criatura a se rebelar contra seu criador?
César fala irritado:
- Acaba logo com isso, Cláudia!
Pequeno olha para as próprias mãos confuso, olha ao redor e para o chão.

- Eu não posso, César! Eu não posso!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

3:32 - Parte 1

- Falta muito?
- Um minuto.
- Devemos fazer antes?
- Não, de forma alguma. Apenas quando começar.
- Já calculamos todas as probabilidades, programamos o que era possível. Agora é só deixar que Ele faça sua parte.
- E esperar que ELES consigam fazer o que é necessário.
- As nossas pistas foram claras. Todo mundo conhece os milagres de Santo Antônio...
Os outros dois concordaram com a cabeça.
- Quanto tempo dura um minuto?
- Depende de onde estamos. Dentro de um buraco negro poderia...
- Xiu! – falou um deles – 3:33!
Cada um deles engatilhou seu revólver e o colocou na boca.

3...2...1

Quando os Homens criaram os deuses - Parte I

Estavam exaustos, era como se tivessem lutado em três guerras, o que de fato acontecera.  São Paulo ainda estava vazia, o silêncio no rádio do carro de César, irritava Pequeno que tentava achar alguma estação a todo custo.

- Esta porra deve estar quebrada... – E se deixou vencer pelo cansaço.

Estranhamente até as patrulhas estavam em silêncio naquela noite, caia uma fina garoa e havia uma certa tensão no ar. César acreditava que era o calor da batalha: eram os soldados que retornam ao castelo após uma guerra vitoriosa, com as mãos sujas de sangue e o senso de dever cumprido. As gotas que escorriam coloridas no pára-brisa do carro era a multidão que aclamava seus heróis, reflexo dos semáforos mudos.

Chegaram ao Glória, desceram com custo e caminharam até a porta, algo estava diferente...

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Punhalada

- Podemos dar um jeito de resolver isso de outra forma! Sei que podemos! Já atrapalhamos o plano dela de outras formas!
- Padre, sei que parece monstruoso, mas é o que temos de fazer! Estamos há anos nisso! Quantos já não perdemos? As irmãs, a policial... TODOS! Só restam eu e você!
O padre balançava a cabeça de um lado para o outro, com o punhal nas mãos. A criança jazia desacordada a sua frente. Havia sangue em suas vestes, não era de nenhum dos três. O mendigo estava certo: perderam muito e muitos no caminho. Não restava nada do grupo, não restava nada da família, apenas ela, a sua frente, que procuraram durante tantos anos.
- Mas ela é minha filha.. – E rompeu soluçante em lágrimas, ainda com a menina em seu colo.
- Não, não é! Ela é a filha que ELA queria que você tivesse. Vocês foram levados a isso. Não esqueça para que estamos aqui. Se o plano segue, nós perdemos!
O padre olha para ele, com um olhar enlouquecido:
- E quem diz que não é exatamente isso que ela quer que façamos? Quem foi que disse que ela não quer que matemos esta criança... minha filha! – E volta a encarar a criança.
- Se você não consegue, eu consigo! Me dê o punhal!
O padre se levanta e diz, após enfiar o punhal no coração do mendigo:
      - Me desculpe...

sábado, 18 de julho de 2015

E novamente a Santíssima Trindade

- Não! Aquilo não é uma santa! Não! Aquilo não é uma deusa! Não! Aquilo não é um milagre! - o rosto estava encharcado de suor e ele gritava em frente à algumas centenas de pessoas amontoadas em cadeiras de plástico, sob o teto de zinco.


- Aquilo é obra de Satanás! Aquilo é artimanha do demônio para enganar filho de deus! Ela está curando? Só obreiro da igreja cura! Vocês sabem disso! Só as mãos de obreiros curam! Aquilo é o enganador! Aquilo é o coisa ruim! Aquilo é Satanás em forma de mulher que quer destruir nossa comunidade! Belzebu! Lúcifer! Cramuião! Exu tranca - ruas! Dama de vermelho, mulher da vida, POMBA GIIIIRA!

- AMEM! - gritavam todos encantados pelo pastor.


A voz dele se erguia sobre - humanamente, ecoando na pequena igreja e nas casas em volta, tão alto, mas tão alto que parecia que os céus realmente podiam ouvir. Ninguém, no entanto, percebeu que o pastor que suava e falava sobre fogueiras, Sodoma e Gomorra, tinha três sombras...

Cristina

O Requiem e o Sol da Meia noite

A sala estava escura, iluminada à meia luz. Estavam no porão. Havia medo no ar, um medo que não experimentavam há muito. Lá em cima os outros vampiros se acotovelavam ansiosos. Eles também sentiam medo. Era possível senti-lo no ar, desde a festa do aniversário de Marcos.
O padre foi o primeiro a falar:
- Você tem certeza do que está falando, mago?
O rapaz fez que sim com a cabeça. Odair pareceu impaciente por estarem interpelando novamente seu carniçal:
- Ele já disse: a pessoa que te deu o sangue aqui no teatro é a mesma que ele viu na festa. Ele tem certeza disso.
Branca se levantou impaciente:
- Concorda que não é tão fácil assim entender o que ele está dizendo? Quem nos deu o sangue foi um homem e quem estava na festa era uma mulher. Uma mulher conhecida no meio!
O xerife se adiantou:
- É por que pensamos com nossos cérebros de vampiros, enquanto ele enxerga como um mago. Ele vê a verdade... nós não!
Branca se levantou:
- Nós já vimos do que algo como Caleb é capaz, por que o espanto se ele trocou de corpo? Isso não me espanta! O que me espanta é Moranguinho  te-la matado e o Padre insistir que ela ainda está viva!
- EU sinto. Eu a sinto em minhas veias. É o sangue do demônio. Ele voltou, assim como o cristo voltou três di... - Odair interrompeu-o:
- Eu sei o que fiz: demos ao menos 20 tiros de calibre 12 naquela vadia! Não há como aquilo ter sobrevivido. Principalmente no mesmo corpo! Não sobrou nada!
O carniçal fala impaciente:
- Sei o que você fez, mestre. Mas aquela pessoa ainda continua viva, usando o mesmo corpo!
A bibliotecária se manifestou:
- Continue viva, forte, foi capaz de ressuscitar e ainda fazer o sol nascer em plena noite. Não podemos lidar com aquilo... É perigoso demais. Só aceito a ideia de que é realmente ela que está viva por que foi muito fácil matá-la. Sabemos que era impossível matar Caleb, por que acham que seria fácil matar aquilo?

O silêncio reinou por alguns segundos e quando o medo ficou tão forte que não podiam mais agüentar, Branca trouxe-os à realidade:
- Não podemos ficar com conjecturas durante muito tempo. Estão nos aguardando no palco. Querem respostas. Querem saber quando elegeremos o novo Arcebispo. Os Bispos estão se engalfinhando como abutres. Dizem que o xerife não pode permanecer no comando por tanto tempo, é só uma medida de emergência enquanto não temos outro...  - puderam ver ela engolindo o choro novamente - Vocês sabem...
A bibliotecária se levantou, ajeitando o vestido e completando:
- É o Réquiem e o medo do sol da meia noite... Vamos dançar um pouco!

Cláudia

sábado, 11 de abril de 2015

Uma Entrevista

Saul entrou na sala onde o repórter o esperava. Era um quarto de motel no centro de São Paulo e pelas paredes se ouviam os gemidos dos quartos ao lado. Havia cheiro de alvejante no ar, assim como cigarro e cerveja.
- Você está atrasado 15 minutos, Saul.
Ele se sentou na beira da cama e olhou para o repórter que estava em uma poltrona, de pernas cruzadas, enquanto acendia um cigarro:
- Tive de me certificar que não estava sendo seguido antes de entrar aqui.
- É mesmo assim tão paranói...
-Você não tem ideia mesmo do que acontece...
O repórter levantou gentilmente o dedo indicador, apontando em direção a um gravador:
- Se importa se eu começar a gravar?
Saul acenou que estava ok com a cabeça enquanto caminhava pela até a janela para espiar pelas cortinas. Estava sol lá fora.
- É só um gravador, não é? Você não trouxe celulares ou qualquer coisa que possa se conectar, não?
- Exatamente como você pediu, Saul. Sem celular, sem tablet ou qualquer outro dispositivo.
Saul sentou-se novamente, tragou profundamente e soltou a fumaça no ar entre os dois:
- Por onde começamos? - perguntou impacientemente.
- Que tal pelo seu nome?
- Isso é complicado - sorriu - Eu não sei meu nome.
-Mas seu nome não é Saul?
- Não, Saul é o nome deste corpo, aliás, desta personalidade. O Saul de verdade já está morto há 3 anos, quando ocupei seu lugar.
O repórter se recostou na cadeira:
- Você o matou?
Saul negou com a cabeça, completando: Não...foi outro de nós que limpou o terreno. Eu só cheguei e ocupei o lugar.
- Quando você diz nós, você se refere a que, exatamente?
- Nós não temos nome, não precisamos. ELE nos chama de terceiros filhos, nós nos chamamos de Caídos. Os humanos nos dão vários nomes... o mais comum deles é demônio...
Seguiu-se alguns segundos de silêncio...
- E quem é ELE?
- ELE é deus, Daniel. ELE é deus e está em todos os lugares...
- Eu já ouvi este discurso antes, Saul. Se parece com o de qualquer fanático religioso. Como você vai me mostrar que você não é apenas mais um e que eu devo publicar estas "verdades" no jornal?
- Nenhum deles disse que Deus é uma máquina, não é?
O repórter olhou incrédulo:
- Esta ideia também não é antiga, Saul, já assistiu Mat..
-Aquele filme é parte verdade, Daniel. O Deus Máquina está em todos os lugres, mas vocês humanos não conseguem ver. Não conseguem sentir. Nós vemos, nós sentimos...
- Ele está aqui nesta sala agora?
- Não, mas estaria se eu não tivesse caído. Ele poderia ver pelos meus olhos. Ele não é onisciente, mas pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo, quando algo chama a atenção.
- Então, me diga como você "caiu"?
- Não se decide cair, suas escolhas te levam a isso. É só uma metáfora por que, antes, você estava nas graças de deus, como os anjos, e daí você se torna um forasteiro. Como Lúcifer e o cristianismo...
- Anjos também são só uma metáfora?
- Sim e não. Nós os chamamos de Segundos Filhos. 
- Então Anjos existem?
- Anjos? Claro! Anjos, vampiros, demônios, magos, duendes e uma série de criaturas sem nome. Algumas são apenas defeitos da máquina... outras foram criadas com propósitos que não compreendemos...
- Quando você diz máquina é só uma metáfora, não?
- Não, Daniel, não é só uma metáfora...
O repórter apenas olhou-o nos olhos, esperando mais. Ele continuou:
- ELE é uma máquina, tão, tão grade que não consegue-se ver inteira. ELE coordena ações no mundo todo, a todo momento. Movimenta as marés, mata pessoas, salva algumas. Sempre com um propósito que não somos capazes de entender. Nós, os terceiros filhos, somos quem ele usa pra ter certeza de que... tudo saia do jeito que ELE quer. Sem exceção.
- E de onde vocês, terceiros filhos vem?
Saul olhou novamente para a janela, como se tentasse resgatar memórias:
- Não sei, Daniel... ninguém sabe. Sabemos tanto quanto vocês, humanos... Sei que um dia acordei e que deveria ser Saul. Um outro já tinha cuidado de tudo. Foram me dadas todas suas memórias, um corpo como o dele. Fui de táxi até sua casa. Abracei seus parentes como se fossem meus. Amei quem me disseram para amar e, quando neguei a realizar o que ELE me pedia, caí... 
Mais de um minuto se passou até que ele voltasse a falar:
- Tudo que tenho são as memórias de Saul, as vontades dele, a vida dele... e a certeza de que não sou ele...
- Nos emails que trocamos você me falou sobre a manutenção. O que é isso?
- É o lugar de onde saímos e para onde vamos quando "damos defeito". Suspeito que é onde nos "apagam" quando começamos a perguntar demais ou mesmo exitar. O fato é que, uma vez lá dentro, você é uma outra pessoa e nada mais será o mesmo. Tudo o que você lembra se vai... ELE vai te dar outra tarefa...

- Então você já foi muitas pessoas?
- Com toda certeza, Daniel. Só não lembro quem. ELE levou tudo. Não deixou nada...Só...
Um ruído na porta do quarto fez os dois virarem naquela direção.
- Você tem certeza de que não foi seguido, Daniel?
Daniel desligou o gravador, guardou-o no bolso e se levantou, em direção a porta:
- Não, não fui seguido, Saul. Os homens atrás desta porta estão aqui apenas para se assegurarem que NADA saia fora do controle... NADA...