sexta-feira, 24 de julho de 2015

Punhalada

- Podemos dar um jeito de resolver isso de outra forma! Sei que podemos! Já atrapalhamos o plano dela de outras formas!
- Padre, sei que parece monstruoso, mas é o que temos de fazer! Estamos há anos nisso! Quantos já não perdemos? As irmãs, a policial... TODOS! Só restam eu e você!
O padre balançava a cabeça de um lado para o outro, com o punhal nas mãos. A criança jazia desacordada a sua frente. Havia sangue em suas vestes, não era de nenhum dos três. O mendigo estava certo: perderam muito e muitos no caminho. Não restava nada do grupo, não restava nada da família, apenas ela, a sua frente, que procuraram durante tantos anos.
- Mas ela é minha filha.. – E rompeu soluçante em lágrimas, ainda com a menina em seu colo.
- Não, não é! Ela é a filha que ELA queria que você tivesse. Vocês foram levados a isso. Não esqueça para que estamos aqui. Se o plano segue, nós perdemos!
O padre olha para ele, com um olhar enlouquecido:
- E quem diz que não é exatamente isso que ela quer que façamos? Quem foi que disse que ela não quer que matemos esta criança... minha filha! – E volta a encarar a criança.
- Se você não consegue, eu consigo! Me dê o punhal!
O padre se levanta e diz, após enfiar o punhal no coração do mendigo:
      - Me desculpe...

sábado, 18 de julho de 2015

E novamente a Santíssima Trindade

- Não! Aquilo não é uma santa! Não! Aquilo não é uma deusa! Não! Aquilo não é um milagre! - o rosto estava encharcado de suor e ele gritava em frente à algumas centenas de pessoas amontoadas em cadeiras de plástico, sob o teto de zinco.


- Aquilo é obra de Satanás! Aquilo é artimanha do demônio para enganar filho de deus! Ela está curando? Só obreiro da igreja cura! Vocês sabem disso! Só as mãos de obreiros curam! Aquilo é o enganador! Aquilo é o coisa ruim! Aquilo é Satanás em forma de mulher que quer destruir nossa comunidade! Belzebu! Lúcifer! Cramuião! Exu tranca - ruas! Dama de vermelho, mulher da vida, POMBA GIIIIRA!

- AMEM! - gritavam todos encantados pelo pastor.


A voz dele se erguia sobre - humanamente, ecoando na pequena igreja e nas casas em volta, tão alto, mas tão alto que parecia que os céus realmente podiam ouvir. Ninguém, no entanto, percebeu que o pastor que suava e falava sobre fogueiras, Sodoma e Gomorra, tinha três sombras...

Cristina

O Requiem e o Sol da Meia noite

A sala estava escura, iluminada à meia luz. Estavam no porão. Havia medo no ar, um medo que não experimentavam há muito. Lá em cima os outros vampiros se acotovelavam ansiosos. Eles também sentiam medo. Era possível senti-lo no ar, desde a festa do aniversário de Marcos.
O padre foi o primeiro a falar:
- Você tem certeza do que está falando, mago?
O rapaz fez que sim com a cabeça. Odair pareceu impaciente por estarem interpelando novamente seu carniçal:
- Ele já disse: a pessoa que te deu o sangue aqui no teatro é a mesma que ele viu na festa. Ele tem certeza disso.
Branca se levantou impaciente:
- Concorda que não é tão fácil assim entender o que ele está dizendo? Quem nos deu o sangue foi um homem e quem estava na festa era uma mulher. Uma mulher conhecida no meio!
O xerife se adiantou:
- É por que pensamos com nossos cérebros de vampiros, enquanto ele enxerga como um mago. Ele vê a verdade... nós não!
Branca se levantou:
- Nós já vimos do que algo como Caleb é capaz, por que o espanto se ele trocou de corpo? Isso não me espanta! O que me espanta é Moranguinho  te-la matado e o Padre insistir que ela ainda está viva!
- EU sinto. Eu a sinto em minhas veias. É o sangue do demônio. Ele voltou, assim como o cristo voltou três di... - Odair interrompeu-o:
- Eu sei o que fiz: demos ao menos 20 tiros de calibre 12 naquela vadia! Não há como aquilo ter sobrevivido. Principalmente no mesmo corpo! Não sobrou nada!
O carniçal fala impaciente:
- Sei o que você fez, mestre. Mas aquela pessoa ainda continua viva, usando o mesmo corpo!
A bibliotecária se manifestou:
- Continue viva, forte, foi capaz de ressuscitar e ainda fazer o sol nascer em plena noite. Não podemos lidar com aquilo... É perigoso demais. Só aceito a ideia de que é realmente ela que está viva por que foi muito fácil matá-la. Sabemos que era impossível matar Caleb, por que acham que seria fácil matar aquilo?

O silêncio reinou por alguns segundos e quando o medo ficou tão forte que não podiam mais agüentar, Branca trouxe-os à realidade:
- Não podemos ficar com conjecturas durante muito tempo. Estão nos aguardando no palco. Querem respostas. Querem saber quando elegeremos o novo Arcebispo. Os Bispos estão se engalfinhando como abutres. Dizem que o xerife não pode permanecer no comando por tanto tempo, é só uma medida de emergência enquanto não temos outro...  - puderam ver ela engolindo o choro novamente - Vocês sabem...
A bibliotecária se levantou, ajeitando o vestido e completando:
- É o Réquiem e o medo do sol da meia noite... Vamos dançar um pouco!

Cláudia