quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Brincadeira de criança

César tentou escutar por trás da porta, na esperança de não ouvir nada.
Ouviu risos.
Seu coração quase parou. Teria descido as escadas e pulado do viaduto logo em frente à boate, mas sabia que o Contador não o deixaria sair. Era prisioneiro dele e, por enquanto, não havia nada o que podia fazer. Ele apenas dissera:
- Suas filhas estão te esperando, papai. Construí um quarto novo para elas. Já estavam grandes demais pra ficar naquele cubículo ou sobre uma prateleira.
César o fitara por alguns segundos, sem saber o que responder. O Contador apenas acrescentou:
- Dê o que comer e eles crescem, César. Elas não poderiam ser crianças para sempre, por mais que você quisesse. As alimentei com aquilo que saia da garrafa. Me alimentei com aquilo que sai da garrafa e olha que coisa maravilhosa aconteceu! Tenho certeza de que elas estão ansiosas pelo seu retorno.
Já perdera a noção de quanto tempo estava ali parado no corredor, com o ouvido colado à porta, tentando prever o que aconteceria. Havia risos. Os gritos que ouvia eram de Pequeno, no porão. Risos...
Possivelmente estavam contentes. O que era bom.
Ou estariam tentando deixá-lo louco, apenas rindo. O que já estava acontecendo.
Poderiam estar brincando entre si, esperando o papai. O que era pouco provável.
Ou poderia apenas ser uma gravação... vozes infantis saindo de um velho televisor ou gravador, programações do Contador, que tentava assustá-lo. O que era provável.

Sorriu e teve dificuldades ao girar a maçaneta, pois suava em bicas. Estava ali fazia 15 minutos.
- Papai?!

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