César tentou escutar por trás da porta, na esperança de não
ouvir nada.
Ouviu risos.
Seu coração quase parou. Teria descido as escadas e pulado
do viaduto logo em frente à boate, mas sabia que o Contador não o deixaria
sair. Era prisioneiro dele e, por enquanto, não havia nada o que podia fazer.
Ele apenas dissera:
- Suas filhas estão te esperando, papai. Construí um quarto
novo para elas. Já estavam grandes demais pra ficar naquele cubículo ou sobre
uma prateleira.
César o fitara por alguns segundos, sem saber o que
responder. O Contador apenas acrescentou:
- Dê o que comer e eles crescem, César. Elas não poderiam
ser crianças para sempre, por mais que você quisesse. As alimentei com aquilo
que saia da garrafa. Me alimentei com aquilo que sai da garrafa e olha que
coisa maravilhosa aconteceu! Tenho certeza de que elas estão ansiosas pelo seu
retorno.
Já perdera a noção de quanto tempo estava ali parado no
corredor, com o ouvido colado à porta, tentando prever o que aconteceria. Havia
risos. Os gritos que ouvia eram de Pequeno, no porão. Risos...
Possivelmente estavam contentes. O que era bom.
Ou estariam tentando deixá-lo louco, apenas rindo. O que já
estava acontecendo.
Poderiam estar brincando entre si, esperando o papai. O que
era pouco provável.
Ou poderia apenas ser uma gravação... vozes infantis saindo
de um velho televisor ou gravador, programações do Contador, que tentava assustá-lo.
O que era provável.
Sorriu e teve dificuldades ao girar a maçaneta, pois suava
em bicas. Estava ali fazia 15 minutos.
- Papai?!
- Papai?!
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