Eu não sei quantos anos tem
Concórdia... Sei que ela já existia antes da minha mãe nascer e
antes da mãe dela também. Não é uma grande coisa, já adianto…
Dizem que somos meio milhão de pessoas, considerando a parte alta e
baixa da cidade, quase nada se comparada às cidades dos meus sonhos,
mas de qualquer maneira somos a maior cidade já erguida pelo homem.
Somos cercados pelo mare de areia, que
se estende por centenas e centenas de quilômetros para todos os
lados, dizem. Há, é claro, uma vilazinha aqui, outra ali: 100…
200 pessoas… Mas eles em geral tem de vir até Concórdia atrás de
itens que não conseguem produzir, ferro fundido, implantes,
reductores, tudo que só a “cidade grande” consegue produzir.
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| Cidadela |
Moro na parte alta da cidade, isso
quer dizer que nossas ruas são calçadas por pedras e que despejamos
nossas impurezas longe de nossas coisas, para não dizer exatamente
sobre a cabeça da cidade baixa. Aqui em cima elegantes mulheres
desfilam durante o dia, com sombrinhas estampadas, de braços dados
enquanto observam os homens que as observam. Os homens tiram seus
chapéus ou cartolas para cortejá-las enquanto passam… Param seus
cavalos e charretes para que elas cruzem de um lado ao outro e
sorriem educadamente enquanto elas cochicham entre si.
As crianças aqui em cima vão à
escola para aprender a ler o livro sagrado, inclusive as mulheres! Lá
em baixo, não! É o que dizem para as crianças daqui, possivelmente
para assustá-las.
Mas eu, em minhas incursões noturnas
não autorizadas até “lá em baixo” já me deparei com algumas
escolas. Todas eram muito precárias e percebia-se que nem de longe
eram grandes o suficiente para abrigar as crianças, caso todas
decidissem ir às aulas. Mas… se você tem que ajudar sua família
nos criadouros, fornalhas ou minas… a educação fica para segundo
plano. Imagino que poucas são as famílias que realmente se
preocupem em querer que o filho tenha uma sina diferente da sua, em
uma mina de carvão, fundindo aço ou quebrando cascalho. A maioria
cresce em meio às brigas dos saloons, justiceiros, guardas e bebida,
muita bebida!
Então você me pergunta se todos da
cidade alta são ricos e todos da cidade baixa são pobres?
Claro que não! Existe uma grande
quantidade de pessoas que estão no meio: são os artesãos,
padeiros, perfumeiros, guardas, amantes de luxo, etc. Gente que
circula tanto na “cidadela” (como alguns chamam a parte alta)
quanto no Umbral (como chamam a cidade baixa). São eles que levam as
notícias para cima e para baixo, alimentando a inveja do Umbral e o
medo da Cidadela.
Mas as vezes o medo é justificado.
As vezes um justiceiro ou fora da lei
resolve acertar as contas com quem realmente “manda na coisa” e
resolve subir. Seus cavalos de metal chegam sujos de terra das ruas
não calçadas da cidade baixa. Ele é obviamente de fora dali,
sente-se no cheiro, dizem. Eu diria que na verdade eles são mais
espertos do que nós. Usar fibras nas vestimentas não é muito
esperto quando estamos em uma cidade com tanto vapor. Já os
justiceiros usam couro, couro de cavalos de verdade ou bois que
abatem ilegalmente nas fazendolas. A maioria tem implantes,
geralmente uma perna ou uma mão, que fora perdida num duelo e vem
acertar as contas com um banqueiro que pagou mal pelo serviço, ou um
ourives.
A guarda da cidadela é acionada pelos
tiros, ou pelos sinos, que estão espalhados por toda ela… eles
chegam em cavalos de metal feitos pelos magos, geralmente tem
simbiontes nas pernas e botam o “lixo de umbral” pra correr. A
guarda é respeitadíssima afinal, nós humanos, gostamos de disputas
e numa cidade tão grande, com tantos recursos nas mãos de tão
poucos, brigas e acertos de contas acontecem o tempo todo.
Antony




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