sábado, 12 de setembro de 2015

Concórdia


Eu não sei quantos anos tem Concórdia... Sei que ela já existia antes da minha mãe nascer e antes da mãe dela também. Não é uma grande coisa, já adianto… Dizem que somos meio milhão de pessoas, considerando a parte alta e baixa da cidade, quase nada se comparada às cidades dos meus sonhos, mas de qualquer maneira somos a maior cidade já erguida pelo homem.
Somos cercados pelo mare de areia, que se estende por centenas e centenas de quilômetros para todos os lados, dizem. Há, é claro, uma vilazinha aqui, outra ali: 100… 200 pessoas… Mas eles em geral tem de vir até Concórdia atrás de itens que não conseguem produzir, ferro fundido, implantes, reductores, tudo que só a “cidade grande” consegue produzir.
Cidadela
Moro na parte alta da cidade, isso quer dizer que nossas ruas são calçadas por pedras e que despejamos nossas impurezas longe de nossas coisas, para não dizer exatamente sobre a cabeça da cidade baixa. Aqui em cima elegantes mulheres desfilam durante o dia, com sombrinhas estampadas, de braços dados enquanto observam os homens que as observam. Os homens tiram seus chapéus ou cartolas para cortejá-las enquanto passam… Param seus cavalos e charretes para que elas cruzem de um lado ao outro e sorriem educadamente enquanto elas cochicham entre si.
As crianças aqui em cima vão à escola para aprender a ler o livro sagrado, inclusive as mulheres! Lá em baixo, não! É o que dizem para as crianças daqui, possivelmente para assustá-las.
Mas eu, em minhas incursões noturnas não autorizadas até “lá em baixo” já me deparei com algumas escolas. Todas eram muito precárias e percebia-se que nem de longe eram grandes o suficiente para abrigar as crianças, caso todas decidissem ir às aulas. Mas… se você tem que ajudar sua família nos criadouros, fornalhas ou minas… a educação fica para segundo plano. Imagino que poucas são as famílias que realmente se preocupem em querer que o filho tenha uma sina diferente da sua, em uma mina de carvão, fundindo aço ou quebrando cascalho. A maioria cresce em meio às brigas dos saloons, justiceiros, guardas e bebida, muita bebida!
Então você me pergunta se todos da cidade alta são ricos e todos da cidade baixa são pobres?
Claro que não! Existe uma grande quantidade de pessoas que estão no meio: são os artesãos, padeiros, perfumeiros, guardas, amantes de luxo, etc. Gente que circula tanto na “cidadela” (como alguns chamam a parte alta) quanto no Umbral (como chamam a cidade baixa). São eles que levam as notícias para cima e para baixo, alimentando a inveja do Umbral e o medo da Cidadela.

Mas as vezes o medo é justificado.
As vezes um justiceiro ou fora da lei resolve acertar as contas com quem realmente “manda na coisa” e resolve subir. Seus cavalos de metal chegam sujos de terra das ruas não calçadas da cidade baixa. Ele é obviamente de fora dali, sente-se no cheiro, dizem. Eu diria que na verdade eles são mais espertos do que nós. Usar fibras nas vestimentas não é muito esperto quando estamos em uma cidade com tanto vapor. Já os justiceiros usam couro, couro de cavalos de verdade ou bois que abatem ilegalmente nas fazendolas. A maioria tem implantes, geralmente uma perna ou uma mão, que fora perdida num duelo e vem acertar as contas com um banqueiro que pagou mal pelo serviço, ou um ourives.

A guarda da cidadela é acionada pelos tiros, ou pelos sinos, que estão espalhados por toda ela… eles chegam em cavalos de metal feitos pelos magos, geralmente tem simbiontes nas pernas e botam o “lixo de umbral” pra correr. A guarda é respeitadíssima afinal, nós humanos, gostamos de disputas e numa cidade tão grande, com tantos recursos nas mãos de tão poucos, brigas e acertos de contas acontecem o tempo todo.


Antony


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